[AUTORAL] – Hipótese do marcador somático

Qual é a relação, se há alguma, entre as nossas emoções e o nosso comportamento moral? É isso que entenderemos melhor neste post.

António Damásio é um médico e neurologista que se interessa sobre a relação entre danos em determinadas áreas cerebrais e o comportamento humano. Ou seja, como esses danos estão correlacionados a um comportamento ou à falta de um comportamento.

Em seu livro O erro de Descartes, o neurologista expõe o caso clássico de Phineas Gage (ocorreu em 1848). Gage teve o seu córtex pré-frontal ventromedial (que é a área do cérebro de vocês que fica atrás da testa) perfurado por uma viga de metal, no momento em que ele trabalhava na construção de uma ferrovia. Incrivelmente, Gage sobreviveu.

O que é ainda mais incrível é que o seu comportamento moral foi, para sempre, alterado. Gage não era mais Gage. Um homem outrora cortês, tornou-se rude, falava coisas abjetas, era incapaz de cumprir eficazmente os seus deveres e chegar no horário combinado em seus empregos.

Agora que entra a parte mais interessante do post, então coloque novamente os seus recursos atencionais aqui. Acontece que, se um cérebro sofrer um considerável dano em seu córtex pré-frontal ventromedial, a capacidade emocional do indivíduo estará comprometida. Foi exatamente isso que aconteceu com Gage, e é o que acontece com pessoas que sofrem danos ou nascem com a parte ventromedial do córtex pré-frontal comprometida.

Levando isso em consideração, a emoção tem, portanto, um papel importantíssimo no processo de decisão social. Caso contrário, o comportamento social de Gage e dos pacientes que Damásio expõe em seu livro manteria-se inalterado. Apesar de conseguirem utilizar normalmente aquilo que consagrou-se como “razão”, ela, sozinha, não conseguiu regular o comportamento social desses indivíduos.

A hipótese do marcador somático, em resumo, é a de que as nossas emoções integram o nosso raciocínio, em vez de apenas o atrapalhar, como  supõe-se (“não deixe que as suas emoções o atrapalhe”).

Por fim, pode-se dizer que há uma forte ligação entre a razão e as nossas emoções, de modo que, caso um desses dois polos deixasse de funcionar apropriadamente, aconteceria o mesmo com o comportamento social do indivíduo.

REFERÊNCIAS

Damásio, António. O erro de Descartes. 3ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

Texto escrito por: Silva, I.
Lattes do autor: https://lattes.cnpq.br/4005176584329851

[AUTORAL] – O perigo da desindividualização política ou religiosa

Por que nos dividimos em grupos, e tratamos, na maioria das vezes, os indivíduos que não são do nosso grupo como uma possível ameaça? Por que o Brasil vive, em especial nestas eleições, diante do alarmante conflito grupal entre aqueles que simpatizam com o PT e aqueles que simpatizam com
Bolsonaro?

Segundo o filósofo e neurocientista Joshua Greene, que, atualmente, integra o corpo docente de Harvard, a moralidade foi bem-sucedida ao “resolver” o problema do indivíduo dentro do seu próprio grupo, mas falhou em resolver a tensão existente entre grupos. Por que ela não resolveria o conflito tribal? Porque uma cooperação universal não se encaixa com os princípios da teoria da evolução. Essa teoria é baseada, grosso modo, na ideia de que há competição, seja através de estratégias cooperativas ou agressivas, entre os indivíduos (dependendo da perspectiva, até mesmo entre os genes), sendo os
mais aptos aqueles que conseguem, principalmente, reproduzir e que sobrevivem diante dos desafios colocados pelo ambiente (indivíduos que, por sorte, carregam os genes certos no momento certo). Os genes desses indivíduos dão características únicas a eles e os condicionam a poder sobreviver em determinados ambientes.[1] Lembremos que a revolução industrial aconteceu “agora” e que a agricultura é um processo que se originou há meros 12 mil anos. Nesse sentido, no ambiente em que os ancestrais dos indivíduos da nossa espécie viviam, os recursos eram escassos, portanto, as nossas características herdadas quase que totalmente são aquelas que foram selecionadas no ambiente em que viviam esses ancestrais, que, por ventura, eram caçadores-coletores.

O contexto em que se deu a seleção das características dos indivíduos da nossa espécie impediu a moralidade de se “universalizar”. Um indivíduo que divide a sua maçã com todos os organismos que encontra adota uma estratégia que, ao longo do tempo, o levará à morte, uma vez que ele, ao longo da vida, terá que lidar com organismos grupistas que não dividem a maçã com quem não é do seu grupo.

Tal ambiente de pressão seletiva foi o que, a nível grupal, nos deu uma psicologia que atualmente nos insere em conflitos intergrupais. Isso se dá porque colocar dentro do grupo alguém que não tem os mesmos valores morais que nós ameaçará a coesão grupal. É diante dessa problemática que surge o tribalismo, “o frequente favorecimento de membros do grupo em detrimento daqueles que não fazem parte do mesmo grupo”.[2]

Tome como exemplo os times de futebol: aqui, a mera diferença entre as camisas das pessoas significa que elas são companheiras ou adversárias. Você se lembra do dia 02/10 (primeiro turno das eleições de 2022)? Continuando no ambiente de futebol, ninguém negaria que há uma disputa entre as torcidas rivais que as leva a fazer o que estiver ao seu alcance para favorecer o time. Essas disputas ocorrem porque as pessoas têm um viés psicológico que as orienta a cair no atual precipício do divisionismo, que, por sua vez, incide em uma perspectiva de mundo que falsamente dicotomiza a realidade entre o bem (nós) e  o mal (eles). Esses indivíduos podem até matar os membros de outras torcidas unicamente porque eles
não fazem parte do mesmo grupo.

Contraintuitivamente, essa tendência de querermos pertencer a um grupo, juntamente com a vontade de querermos aumentar o próprio status em relação aos outros membros dentro do grupo, nos leva a solapar os nossos próprios valores morais. Isso porque, de outra forma, em uma situação normal, na qual não estivéssemos rodeados pelo nosso grupo, ao vermos uma pessoa com a camisa de outro time, geralmente não sofremos a influência da pressão grupal ao ponto em que chegaríamos aquilo que a psicologia chama de “desindividualização” e “efeito do observador”, os quais podem, em determinadas situações, fazer com que indivíduos se agridam.[3]

É possível inferir que, em diversos contextos ao longo da história filogenética de nossa espécie, o tribalismo pôde contribuir ajudando aos caçadores-coletores a sobreviver. Entretanto, nas sociedades democráticas, ele aparenta colocar um desafio que, por enquanto, não parecemos estar à altura de enfrentar. Reiterando, ele possibilita a obliteração de mecanismos psicológicos que, em ocasiões de ação individual, funcionariam normalmente. [4]

Umas das lições disso tudo é a seguinte: tomem cuidado acerca de como se comportam e sobre o que dizem quando estão rodeados por seus pares, seja virtualmente ou presencialmente. Em um contexto de democracia liberal, o “outro” pode estar ao seu lado, isso é, ser o seu pai, ou a sua mãe, ou o seu
vizinho, e, em seus íntimos, serem pessoas tão boas quanto você que, no final das contas, foram desindividualizadas devido aos últimos tempos em que se escalonou o conflito entre os diferentes grupos. Nós não somos criaturas politicamente racionais, mas sim emocionais. Saber disso pode nos livrar de parte de nossos preconceitos e fazer com que trabalhemos em direção contrária às nossas tendências psicológicas que jogaram as democracias liberais no atual quadro.

REFERÊNCIAS:
[1] Greene, Joshua. Tribos morais. Rio de Janeiro: Record, 2018, p. 33.
[2] Greene, Joshua. Tribos morais, p. 77.
[3] Burnett, Dean. O cérebro que não sabia de nada. São Paulo: Planeta do Brasil, 2010, p. 221.
[4] Burnett, Dean. O cérebro que não sabia de nada, p. 218.

Texto escrito por: Silva, I.
Lattes do autor: https://lattes.cnpq.br/4005176584329851

[AUTORAL] – Psicologia Evolutiva e Beleza: você vê aquilo que a sua consciência quer que você veja

O debate sobre o que é, afinal, o Belo, perdura há pelo menos 2500 anos. Porém, não é a partir desse extenso debate que a psicologia evolutiva nos entrega novos insights, é a partir do pano de fundo oferecido pela teoria da evolução, que foi apresentada por Chales Darwin em 1859.

No senso comum, ainda mais a partir dos movimentos hippies da década de 1960, instaurou-se uma visão de que a beleza é relativa, o que significa que cada indivíduo poderia classificar, ao seu bel prazer, aquilo que considera como sendo algo belo. Essa visão está um tanto quanto correta. Mas como assim, a beleza é relativa? Sim e não. Na verdade, ela não está no outro organismo, na outra pessoa, mas sim na mente do indivíduo que a enxerga. Por exemplo, por mais bonito que você ache o quadro da Mona Lisa, o seu cachorro não está nem aí para ele. Provavelmente, se o seu cachorro fosse filhote, caso você desse o quadro para ele admirar a beleza da Mona Lisa, ele o trucidaria usando-o como fonte de distração.

Indo do raso para fundo da psicologia humana, ignorando o que os hippies e o seu cachorro têm a dizer,  a fim de dar conta desse conceito complexo, poderíamos dizer que a beleza é, na verdade, uma percepção de medida de sucesso reprodutivo em oferta, tal qual a recompensa por comer uma maçã ou se relacionar sexualmente com outro indivíduo. Mas o que quero dizer com isso? Imagine um mundo em que tudo que você vê reporta a pontos de aptidão (medida de sucesso reprodutivo). Em um mundo como esse, a beleza desempenharia o importante papel  que é nos informar os pontos de aptidão dos potenciais parceiros sexuais. Ela não nos informa uma realidade objetiva que é bela, em vez disso, ela nos informa acerca dos pontos de aptidão dos outros organismos.  “Antroprologizando” e “biologizando” a questão, nua e cruamente ela é um artifício que se desenvolveu ao longo dos milhares de anos de sobrevivência e reprodução dos nossos ancestrais porque conseguia nos orientar, com certo grau de assertividade, acerca dos pontos de aptidão dos machos e fêmeas que apareciam no ambiente.

A experiência da beleza foi tão enraizada na nossa psicologia que se tornou uma experiência inconsciente. (Tal experiência que pode ser vista funcionando a todo vapor em crianças de dois anos de idade!). As etapas funcionais da beleza foram descritas genialmente pelo psicólogo evolutivo Donald D. Hoffman: “toda vez que você encontra uma pessoa, os seus sentidos automaticamente inspecionam dezenas, talvez centenas de pistas, todas em uma fração de segundos. Essas pistas, meticulosamente selecionadas ao longo da nossa história evolutiva, te informam sobre uma coisa: potencial reprodutivo. Isso é, essa pessoa poderia ter, e criar, proles saudáveis”?

O que Hoffman quer dizer com isso é o seguinte: a beleza é o resultado de inferências inconscientes dentro daquele que a enxerga; inferências essas que foram moduladas para enxergar os pontos de aptidão de bons parceiros sexuais em potencial.

Para finalizar, “geneticizando” a questão, tudo isso se trata de replicabilidade genética. Os genes que conferiam as melhores pistas acerca dos pontos de aptidão aos seus organismos, assim como os faziam enxergar as melhores pistas nos outros, foram os que mais se replicaram. E aqui estamos nós: uma espécie que enxerga “objetivamente” a beleza, mas que, no entanto, é completamente enganada sobre a veracidade daquilo que vê. Resumindo tudo, a beleza, tal como nossas mãos e pernas, é dependente do organismo. Ela não é objetiva no sentido empregado pelo senso comum, nem relativa no sentido empregado pelos movimentos hippies da década de 1960. De fato, a sua mente e o outro organismo informam o belo, mas o belo que eles evoluíram para informar e enxergar. Ou seja, a beleza não é relativa e nem objetiva, ela é um fenômeno complexo que merece o seu devido tratamento especial.

Claro, um debate tão complexo como esse não pode ser resolvido nem por um décimo aqui no meu texto. Porém, pode ser discutido.

Referências:

Hoffman, Donald D. The case against reality: how evolution hid the truth from our eyes. Great Britain: Penguin Books, 2020.

Texto escrito por: Silva, I.
Lattes do autor: https://lattes.cnpq.br/4005176584329851

[AUTORAL] – O que é a Psicologia Evolutiva?

Se eu pudesse resumir o que é Psicologia Evolutiva em um parágrafo,  a resumiria assim: ela é simplesmente uma psicologia que é informada pelo conhecimento adicional da biologia evolutiva. Com isso, os psicólogos evolutivos esperam entender a estrutura da mente humana através dos seus criadores, que são os processos evolutivos.

Os psicólogos evolutivos Leda Cosmides e John Tooby argumentam que, se quisermos entender como a cultura modela o comportamento humano, precisamos, antes, entender a arquitetura psicológica que se desenvolveu a partir dos processos evolutivos. É uma tarefa de extrema dificuldade entender o produto (cultura) sem entender melhor o seu produtor (que é a nossa psicologia evoluída). Isso pode ser visto diante das divergentes posições que diferentes intelectuais das ciências sociais tomam como verdadeiras. Um exemplo clássico é a divergência entre os que acreditam em uma possível verdade expressa no corpo teórico de Max Weber e os que acreditam no corpo teórico de Karl Marx.

Porém, vale ressaltar que a própria cultura tem o poder de modelar as estruturas do nosso cérebro e, consequentemente, as nossas experiências de consciência. Isso foi muito bem exposto pelo antropólogo e psicólogo Joseph Henrich, na obra The WEIRDest people in the world.

O empreendimento da psicologia evolutiva nasceu de uma tentativa de integralização conceitual, que visa conectar os diferentes campos da ciências humanas a partir do manto da teoria da evolução, usando como pano de fundo a psicologia humana. Isso porque não haveria uma maneira melhor de entender os comportamentos humanos do que a partir daquilo que o produz, que é a mente. Cosmides e Tooby denominaram essa integralização conceitual como Modelo de Causação Integrada (MCI). Esse modelo conecta as ciências humanas com o resto das ciências reconhecendo que:

“(1) A mente humana consiste em um conjunto de mecanismos evoluídos de processamento de informações instanciado no sistema nervoso humano.

(2) Esses mecanismos, tal como os programas desenvolvimentais que os produziram, são adaptações produzidas pela seleção natural durante o tempo em que os nossos ancestrais eram caçadores-coletores.

(3) Muitos desses mecanismos são funcionalmente especializados para produzir problemas adaptativos particulares, como a seleção de parceiros sexuais, a aquisição de linguagem, as relações familiares e o problema da cooperação.

(4) Para ser funcionalmente especializados, muitos desses mecanismos precisam ser ricamente estruturados de um modo específico.

(5) O processamento de informações de conteúdo específico gera conteúdos particulares na cultura humana, incluindo certos comportamentos, artefatos e representações linguisticamente transmitidas.

(6) O conteúdo cultural gerado por esses ou outros mecanismos estão então presentes para serem adotados ou modificados por mecanismos psicológicos situados em outros membros da população.

(7) Isso configura os processos históricos a nível populacional e epismemológico.

(8) E esses processos são localizados em contextos e ambientes intergrupais, ecológicos, econômicos e demográficos.”

Referências bibliográficas:

Barkow, J; Cosmides; L; Tooby, J. The Adapted Mind. New York: Oxford University Press, 1992.

Henrich, Joseph. The WEIRDest people in the world. New York: Farrar, Straus and Giroux, 2020.

Texto escrito por: Silva, I.
Lattes do autor: https://lattes.cnpq.br/4005176584329851

1º Seminário dos Grupos de Pesquisa do PPGFil-UFRRJ | Grupo de Pesquisa Evolução, moralidade e política | 27/04/22, 13:30

1º Seminário dos Grupos de Pesquisa do PPGFil-UFRRJ | 25 a 28 de abril de 2022

https://cursos.ufrrj.br/posgraduacao/ppgfil/1o-seminario-dos-grupos-de-pesquisa

O evento será exclusivamente online, através da plataforma Google Meet.

Prazo final para inscrição de ouvintes: 23 de abril de 2022, sábado, 23:59.

A inscrição para ouvintes é gratuita e deverá ser feita através de Formulário Google.

O link de acesso ao Google Meet será enviado, no dia 24 de abril de 2022, para o e-mail preenchido no formulário de inscrição.

O certificado de participação para os presentes também será enviado através do e-mail preenchido no formulário de inscrição.

Quarta-feira, 27 de abril de 2022

Grupo de Pesquisa Evolução, moralidade e política

13:30 – Walter Valdevino Oliveira Silva (PPGFil-UFRRJ): Teoria da Evolução como base para a moralidade e a política

14:00 – Iago Pereira da Silva (PPGFil-UFRRJ): O problema da base biológica para a ética normativa

14:30 – Maíra Bittencourt (Mestre em Filosofia – Unicamp): Bayesianismo e Filosofia da Ciência

15:00 – Miécimo Ribeiro Moreira Júnior (PPGLM-UFRJ): Teogonia Política

15:30 – Paulo Marcos da Silva (Biologia – Freie Universität Berlin): Evolução da genitália humana comparada com a de primatas

16:00 – Matheus Adriano Ferreira Coelho (Biologia-UFRJ): As quatro questões de Tinbergen: como a biologia pode nortear as ciências humanas

CLIQUE AQUI PARA SE INSCREVER NA SESSÃO DO DIA 27/04/22 DO GRUPO DE PESQUISA EVOLUÇÃO, MORALIDADE E POLÍTICA.

“An idea with bite” – J. Arvid Ågren [Aeon]

“An idea with bite

O “gene egoísta” persiste pela mesma razão de todas as boas metáforas científicas persistirem: ele continua a ser uma ferramenta afiada para o pensamento claro

J. Arvid Ågren é Wenner-Gren Fellow na Harvard University e na Uppsala University, e autor de The Gene’s-Eye View of Evolution (2021).

https://aeon.co/essays/why-the-selfish-genes-metaphor-remains-a-powerful-thinking-tool

(…)

Nas décadas que se seguiram a essa aposta, O gene egoísta passou a desempenhar um papel único na biologia evolutiva, ao mesmo tempo influente e controverso. No cerne das divergências está a defesa do livro do que se tornou conhecido como a visão do gene da evolução. Para seus defensores, a visão do gene apresenta uma introdução incomparável à lógica da seleção natural. Para seus críticos, “genes egoístas” é uma metáfora datada que pinta uma imagem simplista da evolução, embora falhe em incorporar descobertas empíricas recentes. Para mim, é uma das ferramentas de pensamento mais poderosas da biologia. No entanto, como com todas as ferramentas, para aproveitá-lo ao máximo, você deve entender o que ela foi projetado para fazer.

(…)

A ideia surgiu dos princípios da genética populacional nas décadas de 1920 e 1930. Aqui, os cientistas disseram que você poderia descrever matematicamente a evolução por meio de mudanças na frequência de certas variantes genéticas, conhecidas como alelos, ao longo do tempo. A genética populacional foi parte integrante da síntese moderna da evolução e casou a ideia de Darwin de mudança evolutiva gradual com uma teoria funcional da herança, com base na descoberta de Gregor Mendel de que os genes eram transmitidos como entidades discretas. Sob a estrutura da genética populacional, a evolução é capturada pela descrição matemática do aumento e diminuição dos alelos em uma população ao longo do tempo.

A visão centrada no gene levou isso um passo adiante, para argumentar que os biólogos estão sempre melhor pensando sobre a evolução e a seleção natural em termos de genes, em vez de organismos. Isso ocorre porque os organismos não têm a longevidade evolutiva necessária para serem a unidade central nas explicações evolutivas. Eles são muito temporários em uma escala de tempo evolutiva, uma combinação única de genes e ambiente – aqui nesta geração, mas desaparecidos na próxima. Os genes, ao contrário, passam sua estrutura intacta de uma geração para a outra, ignorando a mutação e a recombinação. Portanto, apenas eles possuem a longevidade evolutiva necessária. Traços que você pode ver, prossegue o argumento, como a pele particular de um urso polar ou a flor de uma orquídea (conhecida como fenótipo), não são para o bem do organismo, mas dos genes. Os genes, e não o organismo, são os beneficiários finais da seleção natural.

(…)

Nessa narrativa, a evolução é o processo pelo qual genes egoístas imortais alojados em organismos transitórios lutam por representação nas gerações futuras. Indo além da poesia e tornando o ponto mais formal, Dawkins argumentou que a evolução envolve duas entidades: replicadores e veículos, desempenhando papéis complementares. Replicadores são as entidades das quais são feitas cópias e que são transmitidas fielmente de uma geração para a outra; na prática, isso geralmente significa genes. A segunda entidade, veículos, é onde os replicadores são agrupados: esta é a entidade que realmente entra em contato com o ambiente externo e interage com ele. O tipo de veículo mais comum é o organismo, como um animal ou uma planta, embora também possa ser uma célula, como no caso do câncer.

A primeira articulação clara da visão focada no gene veio com o livro Adaptation and Natural Selection: A Critique of Some Current Evolutionary Thought do biólogo norte-americano George C Williams (1966). O foco de Williams era neutralizar o mal-entendido popular de que a seleção natural agia para o bem da espécie, uma forma ingênua de seleção de grupo. Como seu livro foi amplamente voltado para o biólogo profissional, sobre quem teve uma influência profunda, a maioria de nós foi apresentada às ideias pela primeira vez na versão mais contundente de O gene egoísta e outros bestsellers de Dawkins. Os argumentos apresentados nos dois livros inspiraram um debate longo e muitas vezes belicoso, cuja lista de participantes parece um quem é quem dos pesos pesados ​​darwinianos do século 20; você encontra John Maynard Smith e W D Hamilton lutando contra Richard Lewontin e Stephen Jay Gould nas páginas da Nature, bem como na The New York Review of Books.

Os críticos e defensores do conceito do gene egoísta discordam sobre muitas coisas. Um exemplo é como definir os termos básicos. Na metáfora central – “genes egoístas” – tanto “egoísta” quanto “gene” são usados ​​de uma forma um tanto incomum. Houve aqueles leitores que parecem nunca ter passado do título, e que pensaram que Dawkins quis dizer que os genes são egoístas da mesma forma que os humanos podem ser. Não é isso. Em vez disso, “egoísta” deve ser entendido metaforicamente como significando que todos os genes agem como se estivessem tentando maximizar suas próprias chances de chegar à próxima geração. Essa competição não é entre genes diferentes dentro do mesmo organismo (embora, como veremos, forneça uma maneira poderosa de dar sentido a tais conflitos genômicos), mas sim entre diferentes variantes, alelos, do mesmo gene dentro de uma população.

(…)

Os defensores do gene egoísta contam com uma noção mais abstrata com origens na genética populacional teórica. Embora prefiram o termo replicador, eles definem um gene como qualquer parte de um cromossomo que não é dividido por recombinação e, portanto, é transmitido intacto através das gerações. Uma consequência dessa definição é que os genes podem ter comprimento arbitrário. Por exemplo, isso significa que o grande pedaço do cromossomo Y que nunca se recombina com o X é contado como um gene. Para consternação de colegas da biologia molecular, essa é uma definição agnóstica sobre quaisquer detalhes bioquímicos da sequência do gene. Por exemplo, quando o biólogo molecular Gunther Stent revisou The Selfish Gene em 1977, ele reclamou que a definição “desnatura o conceito central significativo e bem estabelecido da genética em uma noção difusa e heuristicamente inútil”.

(…)

Essa perspectiva é especialmente valiosa quando observamos fenômenos que parecem ter poucos benefícios para os indivíduos. Por que a abelha operária estéril daria a vida a serviço da rainha da colônia? A questão é um enigma do ponto de vista da abelha individual, mas nem tanto do ponto de vista de seus genes. Do ponto de vista de um gene, não importa se ele é transmitido através dos organismos nos quais reside ou se uma cópia idêntica é passada por meio de um parente, uma descoberta feita pela primeira vez por W D Hamilton na década de 1960. A retórica da visão do gene, como a conhecemos hoje, deve muito às tentativas de Dawkins de explicar o trabalho de Hamilton para seus alunos de graduação. Na verdade, a primeira vez que o termo “genes egoístas” aparece é nas notas que Dawkins elaborou enquanto se preparava para atuar como palestrante sobre comportamento animal quando seu orientador de PhD, o holandês vencedor do Prêmio Nobel Nikolaas Tinbergen, estava em licença sabática.

(…)

A chave para essa liberação foi a noção de fenótipos estendidos. Esses são os efeitos de um gene que ocorrem fora do corpo do organismo no qual o gene está localizado. Exemplos clássicos de fenótipos estendidos são as estruturas físicas construídas por animais, como represas de castores, ninhos de pássaros e teias de aranha. Existem também exemplos mais horríveis. Considere a situação em que os parasitas manipulam o comportamento de seu hospedeiro. Isso acontece no caso de formigas zumbis. Aqui, um parasita fúngico vive dentro de uma formiga e assume o controle de seu comportamento. A conquista envolve várias fases. Primeiro, o parasita faz a formiga se deslocar da parte da planta que fornece abrigo e segurança contra predadores, para onde os fungos podem crescer em condições mais ideais. A seguir, quando o fungo cresce o suficiente, ele atira na cabeça da formiga com seu caule. Finalmente, o fungo usa a altura do caule para espalhar seu esporo pelo mundo. Olhar para esta situação da perspectiva de um gene pode ser útil ao tentar entender o que está acontecendo. O comportamento da formiga é influenciado por genes – só que esses genes estão localizados em um organismo diferente.

(…)

Uma grande reclamação é que o conceito do gene egoísta está muito ligado às idéias do passado. Os críticos a associam com a chamada “síntese moderna”: uma integração de descobertas em botânica, sistemática, citologia, paleontologia e ecologia em uma teoria coesa da evolução, culminando na formação da Sociedade para o Estudo da Evolução há 75 anos. A associação entre a visão do gene e a síntese moderna não é imerecida – Williams e Dawkins enfatizaram repetidamente que a metáfora dos genes egoístas nada mais era do que uma expressão moderna da teoria clássica.

(…)

Durante as últimas duas décadas, houve apelos para substituir a síntese moderna pela chamada síntese evolutiva estendida. Desta vez, o foco está em coisas como construção de nicho (que os organismos não são objetos passivos, mas podem modificar seus arredores), herança não genética (que os pais passam mais do que genes para seus filhos) e viés de desenvolvimento (algumas mudanças fenotípicas são mais prováveis ​​do que outros).

(…)

Para mim, a visão do gene ofereceu todo o drama de que preciso. De maneira mais prática, a visão focada no gene persistiu pela mesma razão que todas as boas metáforas persistem porque ajuda nosso pensamento à medida que assumimos as complexidades do mundo vivo. Isso nos ajuda a estruturar nossos pensamentos e nos leva a abordar questões que podem ser respondidas empiricamente. Na melhor das hipóteses, as metáforas têm muitas coisas em comum com os modelos matemáticos, pois ajudam a isolar e examinar certas propriedades de uma observação biológica.

(…)

Na pior das hipóteses, eles nos fazem rejeitar outras coisas. Por exemplo, a metáfora de uma “árvore da vida” é uma ótima maneira de ilustrar o grau de parentesco entre as diferentes espécies. Muita ênfase nas espécies como ramos também pode nos levar a ignorar evidências de fenômenos como a hibridização e a transferência horizontal de genes. Conceituar a história evolutiva como uma competição entre genes egoístas oferece uma maneira poderosa de trabalhar a lógica da seleção natural e dá sentido a coisas como conflitos genômicos. Mas a visão do gene alcança seu sucesso ao ignorar outras propriedades da vida. Ele felizmente sacrifica detalhes sobre a estrutura bioquímica dos genes e sua interação. Em situações em que esses detalhes são importantes para a evolução, a visão do gene se torna menos útil.

Devemos sempre nos preocupar não apenas com as perguntas que uma metáfora nos faz fazer, mas também com as perguntas que não foram feitas. Dito isso, a biologia é difícil e precisamos de toda a ajuda que pudermos obter. Quando devidamente compreendida, a visão focada no gene oferece a melhor ajuda que existe.”

“The fungal mind: on the evidence for mushroom intelligence” – Nicholas P. Money [Psyche/Aeon]

“A mente fúngica: sobre a evidência da inteligência em cogumelos

Nicholas P Money é professor de biologia e diretor do Western Program da Universidade de Miami em Oxford, Ohio. Seu livro mais recente é Nature Fast and Nature Slow: How Life Works from Fractions of a Second to Billions of Years (2021).

https://psyche.co/ideas/the-fungal-mind-on-the-evidence-for-mushroom-intelligence

(…)

“Mas, nos últimos anos, um conjunto de experimentos notáveis ​​mostrou que os fungos operam como indivíduos, se envolvem na tomada de decisões, são capazes de aprender e possuem memória de curto prazo. Essas descobertas destacam a sensibilidade espetacular de tais organismos ‘simples’, e situam a versão humana da mente dentro de um espectro de consciência que pode muito bem abranger todo o mundo natural.

Antes de explorarmos as evidências da inteligência fúngica, precisamos considerar o vocabulário escorregadio da ciência cognitiva. Consciência [Consciousness] implica estar em estados consciente [awareness], evidência que pode ser expressa na capacidade de resposta ou sensibilidade de um organismo ao seu entorno. Há uma hierarquia implícita aqui, com a consciência presente em um subconjunto menor de espécies, enquanto a sensibilidade se aplica a todos os seres vivos. Até recentemente, a maioria dos filósofos e cientistas concedia a consciência a animais de cérebro grande e excluía outras formas de vida dessa homenagem. O problema com esse favoritismo, como apontou o psicólogo cognitivo Arthur Reber, é que é impossível identificar um nível limite de consciência ou capacidade de resposta que separa os animais conscientes dos inconscientes. Podemos escapar desse dilema, no entanto, uma vez que nos permitimos identificar diferentes versões de consciência em um continuum de espécies, de macacos a amebas. Isso não quer dizer que todos os organismos possuem uma vida emocional rica e são capazes de pensar, embora os fungos pareçam expressar os rudimentos biológicos dessas faculdades.

(…)

Temos a tendência de associar consciência e inteligência com a aparência de obstinação ou intencionalidade – ou seja, a tomada de decisões que resulta em um determinado resultado comportamental. Quer os humanos tenham ou não vontade própria, tomamos atitudes que parecem intencionais: ela terminou o café, enquanto a amiga deixou a xícara pela metade. Os fungos expressam versões mais simples de comportamento individualista o tempo todo. Os padrões de formação de ramos são um bom exemplo de sua natureza aparentemente idiossincrática. Cada jovem colônia de fungos assume uma forma única, porque variam o momento preciso e as posições de emergência do ramo de uma hifa. Essa variação não se deve a diferenças genéticas, uma vez que clones idênticos de um único fungo parental ainda criam colônias com formas únicas. Embora a forma geral seja altamente previsível, sua geometria detalhada geralmente é irreproduzível. Cada micélio é como um floco de neve, com uma forma que surge em um lugar e tempo no Universo.

(…)

As expressões fúngicas da consciência são certamente muito simples. Mas eles se alinham com um consenso emergente de que, embora a mente humana possa ser particular em seus refinamentos, é típica em seus mecanismos celulares. Os experimentos sobre a consciência fúngica são estimulantes para os micologistas porque abriram espaço para o estudo do comportamento dentro de um campo mais amplo de pesquisa sobre a biologia dos fungos. Aqueles que estudam o comportamento animal o fazem sem referência às interações moleculares de seus músculos; da mesma forma, os micologistas podem aprender muito sobre os fungos simplesmente prestando mais atenção ao que eles fazem. Como jogadores cruciais na ecologia do planeta, esses organismos fascinantes merecem toda a nossa atenção como parceiros genuínos na manutenção de uma biosfera funcional.” [Google Tradutor, com algumas alterações.]