“É um disparate as pessoas convencerem-se de que a inteligência vem do cérebro” – António Damásio [Diário de Notícias]

“É um disparate as pessoas convencerem-se de que a inteligência vem do cérebro”

Vinte e seis anos após O Erro de Descartes, António Damásio tem um novo livro, em que nega a frase do evangelho “no início foi o verbo”. Sobre a pandemia, alerta: “O grande problema da velocidade a que se pode criar uma vacina é ter a garantia de que não se transformará num problema ainda maior.”

https://www.dn.pt/edicao-do-dia/05-dez-2020/e-um-disparate-as-pessoas-convencerem-se-de-que-a-inteligencia-vem-do-cerebro-13104356.html

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Sentir & Saber – A Caminho da Consciência
António Damásio
Editora Temas e Debates
292 páginas

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“Aliás, é mais fácil escrever muito do que pouco, porque o trabalho de redução é extremamente difícil”, acrescenta, rematando com a experiência de um colega que dizia:”Não tenho tempo para escrever tão curto.”

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Se lhe perguntar qual é o legado de um trabalho de décadas, este livro é a resposta?

Existem vários aspetos no meu trabalho: o científico e o de pensamento, portanto dizer que este livro é o legado seria um exagero. É, muito especificamente, uma maneira de tratar assuntos que me apaixonam – problemas científicos e filosóficos – e uma tentativa de os expor sob uma forma mais clara. Por boa sorte, enquanto fui construindo o livro também tive a oportunidade de descobrir que algumas das soluções que tenho apresentado para certos problemas são, de facto, soluções novas e sob certos aspetos – digo eu e vários dos meus colegas – muito convincentes. Então, posso dizer que é ao mesmo tempo uma tentativa de pôr a claro e de uma forma mais direta temas importantes do meu trabalho e deixar claro que existem questões em bom caminho de serem resolvidas. Muito especificamente, no que respeita à consciência e aos sentimentos.

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Aliás, com o tremendo sucesso do que hoje se chama a neurociência, a preocupação dominante tem sido o cérebro, propriamente dito. Questiono se o cérebro é capaz de resolver todos os problemas que existem em torno do que é a mente humana. Para perceber o que é a mente, necessita-se de entender o que se passa com o cérebro, mas, muito antes disso, compreender o que se passa com o corpo, vivo e inteligente. Diria que esta é a resposta completa à pergunta.

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Pode parecer paradoxal, porque quando se pensa na inteligência artificial o que vem à ideia é que são criaturas absolutamente invulneráveis, feitas de aço e de plástico em vez da nossa pobre carne humana. À primeira vista pode parecer uma asneira introduzir vulnerabilidade numa coisa que é robusta, no entanto, só a introduzindo teremos a possibilidade de fazer qualquer coisa de mais rico em matéria das reações que esse “organismo” poderá tomar.

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O que quero é mostrar, tanto quanto for possível, que as respostas que hoje estamos a dar podem ser diferentes mas o mesmo não se passa com as perguntas. Desde que temos mentes conscientes – uma mente consciente é a que tem sentimentos e se estes não existirem, provavelmente, não haveria consciência -, é importante termos a ideia de como o corpo está a funcionar e essa é a porta de entrada para as grandes perguntas humanas, aquelas que são as de sempre e desde que uma pessoa se lembra de que a vida tinha uma problemática extremamente complexa. Mas só desde que existem sistemas nervosos é que foi possível transformar essa problemática em consciente. É um quase paradoxo que, ao pensarmos no tempo da vida humana no planeta, apenas no último quarto desses quatro biliões de anos se deu a entrada dentro do sistema nervoso e que só nos últimos 200 milhões de anos é que, quando muito, há qualquer coisa que venha a parecer-se com aquilo que é o nosso sistema nervoso. A conclusão é que grande parte do tempo dos seres vivos sobre o nosso planeta tem sido vivida de uma forma inconsciente.

O que quer dizer?

Que havia vida complexa e evolução, mas ninguém sabia que existia. É espantoso pensar que isto só começou a ser conhecido no momento em que começámos a ter consciência do que estava a acontecer no nosso corpo e com a nossa vida. Depois, à medida que os sistemas nervosos evoluíram, conseguiu-se ter um conhecimento através da observação e das ciências do que é a vida em seres vivos como nós. É uma história muito complexa, mas uma vez que chegámos à idade da consciência e da razão, foi possível fazer as perguntas e as pessoas puderam olhar umas para as outras, olhar para a história delas próprias, e então fazer essas interrogações e questionar o sentido da existência.

Alerta para o facto de uma teoria que ignore o sistema nervoso para justificar a mente e a consciência estar condenada ao fracasso, mas, diz, uma teoria que dependa exclusivamente do sistema nervoso está também condenada a falhar. Enquanto cientista, como é viver num equilíbrio investigatório?

Sem dúvida que essa é uma das ideias principais deste livro – como já era no anterior,
A Estranha Ordem das Coisas -, a de que a vida começa antes do cérebro. Neste momento é muito comum que estejamos constantemente a ser bombardeados com novos factos e ideias sobre o cérebro, daí que as pessoas acabem por se convencer de que aquilo que é a sua inteligência vem do cérebro. Isso é um disparate e é completamente errado dizer que a inteligência vem do cérebro. A nossa inteligência é complementada pelo cérebro! Porque a nossa inteligência começou há biliões de anos com a própria vida e tem vindo a desenvolver-se com processos que antecedem o aparecimento dos sistemas nervosos. Em inglês, tenho no livro uma frase que é assim: “Brains are an after thought of nature”, traduzindo: “Os cérebros são o último pensamento da natureza.” O que quer dizer que a natureza pode funcionar perfeitamente sem cérebros, contudo o que os cérebros lhe trouxeram foi um melhor funcionamento. Portanto, a razão por que temos cérebros – e mente e consciência e raciocínio – é porque nos ajuda a viver melhor. Ajuda a vida e permite a vida com a grande complexidade como é a dos seres humanos. Não esquecer que, antes de existir essa grande complexidade, já havia vida, inteligência e funcionamento.

Daí que dê como título ao primeiro capítulo “No início não foi o verbo”, contrariando a abertura do Evangelho de João?

Claro, só podia ser assim. A frase clássica é bíblica e tem que ver com a maneira como os seres humanos de há alguns milhares de anos descrevem a sua própria situação. Evidentemente, eles confrontavam-se com a sua realidade e a palavra, como forma de descrever fenómenos diversos, era o modo principal. Hoje, sabemos que temos milhões de anos de evolução, que começaram e mantiveram-se com a inteligência – mas não havia nem cérebro, nem mente, nem capacidade verbal; portanto, é muito importante afirmar que no início não foi o verbo. Trata-se de uma leitura perfeitamente aceitável, mas devemos entendê-la como uma leitura parcial, que é a sua realidade.

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Choca o leitor, e vamos à página 3, quando compara o ser humano aos seres unicelulares ; que nos diferenciamos por ter uma inteligência baseada no raciocínio e na criatividade mas somos iguais no aspeto de uma competência não explícita como acontece com as bactérias. Somos assim tão iguais?

Somos iguais e não somos. Nessa característica somos, mas depois existem todas as outras que vieram juntar-se a essa e que nos dão uma capacidade extraordinária. Não podemos fazer a comparação entre o ser humano e uma bactéria, pois um tem inteligência, capacidade de criação e uma autonomia completamente diferentes, mas ao mesmo tempo devemos reconhecer que a humilde bactéria tem vida, tem de a regular e confronta-se com o problema de se alimentar, de se defender do excesso de frio ou de calor… Uma vez que há vida, existe uma complexidade e uma novidade extraordinárias e é isso que se encontra na bactéria e em nós. Não é que os seres humanos devam ficar ofendidos por serem comparados a uma bactéria, é um pouco ao contrário, pois devemos reconhecer que aquilo que a bactéria tem é um aspeto fundamental para o que nós somos e deve ser respeitada se não quisermos que dê cabo de nós. Seria bom que pudéssemos fazer isso com os vírus, o que não é neste momento de todo possível como se vê com a pandemia com que nos confrontamos.”

Fondazione Prada presenta “Human Brains”

“Fondazione Prada presenta “Human Brains”

https://www.tecnomedicina.it/fondazione-prada-presenta-human-brains/

Fondazione Prada ha intrapreso dal 2018 un percorso multidisciplinare di approfondimento e studio di tematiche scientifiche. Da queste riflessioni nasce “Human Brains”, un programma di mostre, convegni, incontri pubblici e attività editoriali previsto tra novembre 2020 e novembre 2022. Il progetto è il risultato di una complessa ricerca sviluppata in collaborazione con un comitato scientifico, presieduto da Giancarlo Comi e costituito da ricercatori, medici, psicologi, linguisti, filosofi, divulgatori e curatori come Jubin Abutalebi, Massimo Cacciari, Alessandro Del Maschio, Viviana Kasam, Udo Kittelmann, Andrea Moro e Daniela Perani.

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Human Brains

http://www.fondazioneprada.org/project/human-brains/?lang=en

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The first two discussions will see neuroscientist Mavi Sanchez-Vives and neurobiologist Jean-Pierre Changeux, moderated by neurologist Giancarlo Comi, and neurobiologist Eve Marder with neuroscientist Antonio Damasio, moderated by neurologist and neuroscientist Daniela Perani. They will explore the biological fundaments of conscience, from the neurofunctional mechanisms to neurochemical and molecular basis, and they will carry on in-depth analysis of connectivity as a cerebral substrate of conscience state and the revolutionary techniques that allow investigating the brain in vivo.

Two discussions between neurolinguist Andrea Moro and cognitive psychologist Stanislas Dehaene will be moderated by cognitive neurologist Jubin Abutalebi, while the anthropologist Ian Tattersall and neuroscientist Idan Segev will be moderated by neuroscientist Katrin Amunts. They will examine the concept of consciousness in relation to anthropology, the key role of language and its connection to the emotional and affective sphere to then reflect on the future evolution of research and on the attempts to create thinking machines.

Psychiatrist and neuroscientist Giulio Tonoli and philosopher Michele Di Francesco will hold the final discussion, moderated by scientific journalist Vivian Kasam; it will be a crucial moment to confront different perspectives and approaches to the complex question of conscience. Moreover, Giancarlo Comi and Massimo Cacciari will reflect on the contributions of all the previous discussions.”

“How Neuroscience Helps Us to Understand Human Nature” By Antonio Damasio [Brain World Magazine]

“How Neuroscience Helps Us to Understand Human Nature

April 14, 2020

Antonio Damasio

https://brainworldmagazine.com/neuroscience-helps-us-understand-human-nature

[This article was originally a lecture given at the Fourth International Brain Education Conference held at the United Nations. It has been edited for length.]

The area that I come from is that of neurology and neuroscience. My work is about trying to understand how the brain works. My hope is that some of the neuroscience that is taking place right now will help those of you who teach, and those of you who want to make each individual and the world as a whole better than they are today.

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What has only been happening quite recently is that neuroscience can have a role in our culture. Neuroscience also talks about the fields of economics, moral behavior, politics, aesthetics, and education.

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Most of what we know now from neuroscience that has an impact on society and culture actually comes from understanding human emotions, decision-making, and processes of consciousness.

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Why such an interest in neuroscience now? Well, Largely for two reasons. One, there is a revolution going on in biology and two, there is an enormous rise in cognitive neuroscience.

The revolution in biology goes all the way back to 150 years ago and what has been learned since the days of Darwin. We now have a very clear idea of the structure of DNA. DNA is a fundamental element in the transmission of traits through genes. We know about the genetic code. We even know how it operates through molecular genetics and we have a fairly good idea of how the human genome is organized.

At the same time we have something very interesting happening in neuroscience: a hybrid of psychology and of large-scale systems neuroscience. New disciplines with funny names like experimental neuroanatomy, neurophysiology, neuropsychology, and last but not least, human neuroimaging, which has allowed us to have a clear view of the human brain in living individuals.

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Living a life that has reduced stress and a great amount of happiness and harmony is also related. This is not just my desire to whistle in the dark and tell myself that because I’m active and I’m reasonably happy, I’m not going to have Alzheimer’s disease. Stress is inevitable if you live in a large urban center and have to cope with the reality of life. When you are under stress, you’re engaging a number of brain mechanisms that release certain hormones that are anything but helpful to us in our current cultural and historical situation.

They are the hormones that are connected with fear and with anger and they not only damage, for example, your arteries and the heart — bringing the possibility of hypertension — they also damage receptors that are on the surface of cells — nerve cells, neurons — in this region in particular.

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The brain, the source of our memory, our mind, our behavior, and what we consider our self, is nonetheless an organ system that exists within the body. Because we pay so much attention to the brain and the mind, we start talking about brain and mind and behavior as if they were disembodied — as if they existed on some kind of vat and not inside the body. But from the point of view of evolution and biology, we have brains because we have bodies that the brains need to maintain.

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The social structure in which the individual is inserted depends on the life of others. There is no such thing as leading an independent, individual life. From the get-go, we are born and are dependent on our parents. We clearly cannot walk out and run our lives, go to school and get to the university. It’s perfectly obvious that dependence is a state for human beings. They depend throughout life on others.

Spinoza was a major philosopher of the 17th century who I believe was one of the great forerunners of modern thinking in biology. The man could not know anything about the brain. Yet in the 1650s he was honing in on ideas that we now find perfectly sensible in terms of our modern understanding of life and of the brain in particular. He clearly identified, as a source of happiness and more importantly as a source of moral systems, the fact that you cannot be happy by yourself if you do not contribute to the happiness of others.

Here’s a man who was writing all this between Amsterdam and the Hague in the 17th century, and he has very interesting philosophies that were not at all connected with the Christian and Jewish roots that were his education. It is much more connected to other parts of the world where such thinking is more accepted. He had an interesting spiritual view of the world in which there was a God that was nature. He actually talked about God or nature as if they were virtually interchangeable.

How one leads one’s life, and the lives of others that surround one, can influence many diseases of the brain, all the way from stroke to Alzheimer’s disease.

I also wanted to say something specifically about emotions and feelings. Emotions and feelings are two different things.  Emotions turn out to be programs in our brain that we inherited through evolution that are devoted to the management of our life. They’re devoted to a process that is known as “homeostasis.”

Emotions are action programs. When you have fear, your face becomes startled, your body posture changes, your heart races, your gut contracts, your pulse races as well, your respiration changes and on and on. All of that is an action program that exists not just in our brain, but in the brains of many other species. Some of these programs go all the way down to invertebrates, to little creatures like a snail that do not even have a skeleton.

These programs achieve something very important. For example, fear allows you to take action, even without thinking, so that you can remove yourself from harm’s way. There are emotion programs that are negative on the surface, such as fear or anger, but that nonetheless are very positive in the outcome that they produced for us. Probably fear has saved more lives than any other emotion.

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The very important thing to remember is that feelings are not those action programs. Feelings are what you perceive in your mind as a result of being in a state of emotion. Although in everyday language, we confuse one with the other, it’s important — and you have no idea how important this is for research strategy — it’s important to distinguish between an action program that does not even need to be conscious, that animals as have, from feelings. Feelings are conscious and feed this enormously beautiful edifice that we call culture.

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The important thing for you to remember is that emotions are biological processes that are fundamentally about governing life, and administer either punishment or reward. If you’re happy, if you’re leading a great life, then you are administering rewards to yourself.”